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Sociedade Viva Cazuza completa 20 anos em meio a dificuldades para manter seu trabalho

Em 2010 também faz 20 anos que o Brasil perdeu Cazuza

Como diria Cazuza, “O Tempo não para”… Não para e passou rápido. Há duas décadas, o Brasil perdia um dos maiores poetas do pop rock nacional. Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, morreu aos 32 anos de idade vítima da AIDS, doença que na época ainda não contava com os avanços da ciência, que oferecia poucas possibilidades terapêuticas.

Desde que confirmou ser portador do vírus HIV em 87 até sua morte em 90, foram três anos de uma luta árdua do artista e de sua família pela vida e contra o preconceito. Cazuza passou por inúmeras internações em hospitais do Rio, São Paulo e Boston. Chegou a pesar 38 quilos e a se locomover em cadeira de rodas, mas morreu produzindo como nunca e deixando aos seus fãs e à música brasileira um enorme legado, que vem atravessando gerações. Composições como Ideologia, Todo amor que houver nessa vida, Codinome Beija-flor, Amor meu grande amor, Faz parte do meu show, Maior abandonado, Pro dia nascer feliz, Vida louca vida e tantas outras foram gravadas por inúmeros intérpretes ou pelo próprio e até hoje fazem enorme sucesso.

O menino irreverente e rebelde apareceu na cena musical brasileira aos 23 anos como vocalista do Barão Vermelho, ao lado de Dé, Guto Goffi, Roberto Frejat e Maurício Barros. Gravou três álbuns com o Barão e conquistou o disco de ouro com Maior Abandonado, o terceiro da banda. Em 85, Cazuza resolveu deixar os companheiros de estrada para alçar voo solo. Foi quando, no mesmo ano, lançou o cultuado Exagerado, seguido de Só se for a dois e Ideologia.

Já muito debilitado pela doença, Cazuza foi ovacionado ao receber em 89, numa festa no Copacabana Palace, o Prêmio Sharp de melhor álbum por Ideologia e melhor música com Brasil, que ganhou o país na voz de Gal Costa como tema da abertura da novela “Vale Tudo”, de Gilberto Braga.

Único filho do casal Lucinha e João Araújo, Cazuza morreu na casa dos pais, em Ipanema, na manhã do dia em 7 de julho de 1990. Em 2004, sua vida virou filme pelas mãos da cineasta Sandra Werneck em parceria com Walter Carvalho, que o fez baseado no livro “Só as mães são felizes” (mais uma letra de música do artista em parceria com Frejat), escrito por sua mãe (em depoimento à jornalista Regina Echeverria) e lançado em 1997. Na telona, Cazuza foi interpretado pelo ator Daniel de Oliveira, uma unanimidade perante público e crítica na pele do artista.

Nasce a Sociedade Viva Cazuza

Apenas três meses após sua morte, nascia a Sociedade Viva Cazuza, fundada por Lucinha Araújo, que até hoje preside a ONG, que também completa em 2010 duas décadas de atividades. Atualmente, a Viva Cazuza mantém dois importantes projetos: uma “Casa de Apoio” que abriga 20 crianças e jovens soropositivos (de 4 a 17 anos), a maioria deles órfãos; e um “Projeto de Adesão ao Tratamento da Aids”, em parceria com o Hospital da Lagoa e com o Hospital do IASERJ, que contempla hoje 140 pacientes de todas as idades, que se encontram em tratamento na rede pública de saúde.

Apesar de ter perdido um filho, Lucinha Araújo “adotou” os filhos de coração. Pois é como mãe que ela trata as crianças e jovens abrigados na ONG. Desde o acompanhamento das atividades escolares à permissão para fazer programas com amigos ou convidá-los para dormir na casa, tudo passa pelo seu olhar cuidadoso.

E é neste momento que se percebe uma grande vitória dos portadores do HIV: a diminuição do preconceito. Segundo Lucinha, as escolas, professores e amigos conhecem a situação de saúde das crianças que vivem ali e, nem por isso, elas deixam de levar uma vida normal como qualquer outro colega da mesma faixa etária. Não são rechaçadas pelos amigos, nem pelos pais dos amigos.

Além do afeto familiar que elas recebem no projeto, todos têm apoio profissional tanto na área pedagógica (reforço nos estudos, acompanhamento dos deveres de casa e orientação), como na área médica. A casa é equipada com uma enfermaria com todos os recursos médicos necessários inclusive para internação, a não ser para casos mais graves de cirurgia e UTI. Uma técnica de enfermagem disponível 24 horas faz o atendimento individual da garotada, acompanhando semanalmente as taxas virais e a evolução da Aids, bem como o surgimento das chamadas doenças oportunistas.

De outro lado, a Sociedade Viva Cazuza também atende adultos e crianças de todas as idades com dificuldade de adesão ao tratamento da Aids. Profissionais de saúde, contratados do projeto, investigam a vida dos pacientes para descobrir a causa da falha do tratamento e corrigi-la, através de orientação médica e suporte emocional. O sucesso do projeto é total.

Apesar do histórico positivo de 20 anos de atuação, a ONG, sustentada com os direitos autorais das músicas de Cazuza (que respondem por uma renda cada vez menor) e pequenas doações, passa por dificuldades financeiras para arcar com o custo fixo mensal, formado em grande parte pela folha de pagamento dos funcionários e encargos trabalhistas.

Além disso, por motivos desconhecidos, o Ministério da Saúde tem deixado de fornecer a quantidade necessária de remédios retrovirais para o combate da doença desde o início do ano. Segundo Christina Moreira, coordenadora da Viva Cazuza, o Ministério da Saúde conta hoje com uma verba menor para distribuição de remédios do que há cinco anos. “Acredito que isso se deve ao aumento da perspectiva de vida dos portadores do vírus HIV e à ausência de matérias na imprensa sobre a doença. Atualmente, as pessoas não morrem mais de Aids, mas, ainda assim, a doença merece muita atenção, pois não tem cura. No mundo todo, morrem cerca de três milhões de pessoas por ano de Aids e cinco milhões são contaminadas anualmente”, alerta.

Acervo do cantor
Muita gente não sabe, mas é num espaço da Sociedade Viva Cazuza que sua mãe, Lucinha Araújo, mantém viva a memória e obra do cantor. Todo o acervo de Cazuza se encontra lá na sede da ONG e à disposição do público e fãs. São inúmeras fotos enquadradas que tomam quase todas as paredes e ilustram a carreira do artista, tanto ao lado dos companheiros do Barão, como na fase solo.

Há também roupas de show (como o terno branco de panamá do último show), inúmeras bandanas – marca registrada de Cazuza nos palcos -, prêmios, discos em vinil, livros, CDs, DVDs e muitos objetos pessoais, alguns de quando ele ainda era bebê, como a roupa do batizado.

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